Fachadas em 6 momentos

O que todo mundo vê quando chega em alguma edificação/ construção? A fachada!
O que vemos quando andamos pela cidade? As fachadas.
O que vemos quando a criança desenha aquela casinha singela e mostra toda feliz para seus pais? A fachada.

Afinal, o que é uma fachada?

Uma edificação é definida por diversas fachadas, cada plano vertical compõe uma fachada, que pode repetir detalhes gerais das outras ou se destacar e assumir o papel de mais importante. Geralmente a frontal e a dos fundos – quando ali há área de lazer – assumem o papel de mais importantes ao se falar de residências. Os prédios geralmente tem na frontal sua principal fachada, em que há o maior nível de detalhes, e isso vem sendo aplicado e replicado desde a época dos grandes templos, em que esse plano vertical principal assume o papel de retratar a imagem que se quer passar quando olharem a sua fachada!

Minha casa tem muro alto voltado para a rua, ele pode ser considerado uma fachada?

Sim, essa é provavelmente a única vista que se tem da sua casa a partir da rua, então vale a pena cuidar direitinho dela!

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Quantas fachadas formam a paisagem da cidade de São Paulo?
Imagem – Site Observatório Social do Brasil/ São Paulo

Vamos tornar nossas cidades mais bonitas
com as fachadas?

1) A fachada é seu cartão de visitas.

É, concordamos com a ideia de que uma fachada bem resolvida, harmoniosa e bem cuidada é um belo cartão de visitas. Mas, o que é preciso para se ter uma fachada assim? Eu preciso seguir tudo o que dizem que é tendência e está em alta no momento? Preciso investir muito dinheiro na minha fachada?
acasa | forma&função responde:

Uma fachada bem resolvida e harmoniosa é aquela que realça e se harmoniza com a arquitetura da própria construção e também com o entorno próximo.

De nada adianta você trocar todos as suas janelas e portas pelo famoso ‘blindex’, aquelas janelas todas em vidro, se a arquitetura da sua casa não ‘conversa’ com esse ‘estilo’. De nada adianta você deixar sua casa com um ‘estilo clean’ sendo que a arquitetura dela não é essa. É preciso buscar harmonia na composição dos elementos!

“Acredite, descaracterizar uma construção dá mais trabalho e custa muito mais que você respeitá-la e evidenciar seus pontos fortes.
Fora que o resultado é muito mais bonito, sem parecer forçado!”

Projeto de fachada pós reforma e construção de novo bloco com área de lazer e suíte
Projeto acasa | forma&função

E falando nisso, a gente sempre evita falar de tendência ou coisas que estão em alta no momento. Não que a gente não acredite nisso, mas se é tendência hoje, amanhã pode deixar de ser, e se você fez apenas para seguir uma tendência, vai ficar parado no tempo até ter dinheiro de novo para poder investir em outra reforma e na tendência de então…

Então quer saber o que você faz com a tendência? Avalia até onde é amor e até onde é modismo… você provavelmente vai ter que conviver com algumas escolhas por longos anos. Para nós, modernizar e atualizar é melhor que descaracterizar.

E sobre o investimento? Eu quero reformar minha fachada e mudar tudo e deixar tudo novinho!
Perguntamos: sua casa está caindo? Se sim, é melhor você trocar de casa! Mas, se for uma necessidade (não está desabando, só apresentando problemas), aí é legal investir em uma pequena reforma e aproveitar para atualizá-la, com um bom projeto que harmonize o existente com o novo.

Se não for nada além do apelo estético, nós não recomendamos, porque uma atitude assim não é nem um pouco sustentável. Como nosso próprio nome diz, somos forma & função, ou seja, acreditamos que as escolhas devem se complementar. Nunca vai ser 50% exato para cada, mas quanto menor for a diferença entre estes dois fatores, acreditamos que a arquitetura terá mais sucesso e os usuários (quem utiliza aquele ambiente construído) viverão melhor!

Ou vai dizer que você prefere ficar pagando por anos o empréstimo da reforma da sua fachada só porque ‘P R E C I S A V A’ trocar as grades por aqueles panos de vidro ENORMES, porque metade da rua já fez assim?

2) A fachada é resultado de diversas escolhas da arquitetura

A sua fachada não está aí como elemento decorativo. Aliás, pode até estar, como é possível ver em diversas construções relacionadas aos movimentos denominados Neo, que eram a representação de outros momentos da arquitetura, como o tão utilizado, mas já deixando de ser tendência, Neoclássico. Basta olharmos quantos prédios residenciais por aí tem um monte de firula simplesmente por ter, porque em algum momento o mercado enxergou que tal estilo representava uma idealização dos clientes e vendia mais, e aí as construtoras começaram a investir cada vez mais e chegamos à arquitetura que chamamos de ‘Neonada’! Porque elas não são nada mesmo, nem moderna, nem contemporânea, nem neoclássica e muito menos clássica! São apenas replicação de um modelo que “vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais”.

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Imagem da internet

Mas… voltando à explicação sobre fachadas, elas geralmente são, ou deveriam ser, o resultado de diversas escolhas de projeto, com cadência, ritmo, intervalos, e vários outros recursos disponíveis na arquitetura, que se refletem nos planos verticais exteriores de uma construção (as fachadas) e criam uma composição. Elas, por obrigação tem que ter sentido, e não são apenas elementos estéticos organizados de forma a ficar ‘bonitinhos’.

Este é o chamado Fachadismo, um ‘tratamento das fachadas’, repleto de argumentos que vendem bastante para os leigos, mas que, no final, não fazem diferença.

O problema do fachadismo é que ele não acrescenta nada para quem compra um imóvel ou para a beleza da cidade, ele só encarece a execução!

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Fachada de residência Vila Matilde, premiada internacionalmente
Projeto Terra e Tuma/ Imagem – Archdaily

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Fachada de residência em condomínio fechado/ Piracicaba
Projeto Mariela Lencioni + acasa | forma&função/ Imagem – João Ribeiro

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Fachada do WZ Hotel/ SP
Ela interage com a cidade e muda de cor de acordo com a qualidade do ar na cidade
Projeto Guto Requena/ Imagem – Archdaily

3) A fachada impacta no entorno imediato e afeta a harmonia da cidade

Uma questão importante que deve ser sempre pensada e levada a sério pelos arquitetos é a harmonia das fachadas com o entorno imediato (aquelas construções que são vizinhas ou próximas). É uma questão de responsabilidade social do profissional pensar o projeto levando em conta o que tem em volta. E estamos falando aqui apenas de estética (forma), pois bons projetos levam em conta também questões técnicas (função) como microclima local do terreno ou construção, orientação solar e possíveis interferências de sombra e ventilação que os prédios vizinhos possam trazer.

Às vezes você é louco por um estilo que não condiz com o as construções próximas e existentes ao redor, mas faz questão e não abre mão! Nestes casos cabe ao arquiteto solucionar e criar uma fachada que converse e harmonize com o entorno, e que atenda suas expectativas, para que sua construção não vire um mico na rua!!!

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Alguma dúvida de que este ‘castelinho’ está afetando a paisagem da cidade?
Imagem Google Street View

*Aqui cabe uma observação: os profissionais capacitados a resolver fachadas são sim os arquitetos. Engenheiros civis e designers de interiores não deveriam nem chegar perto, porque apenas arquitetos estudam para isso.

4) A fachada, os muros e a segurança

Quando falamos de fachada, falamos também de algo importante hoje nas grandes cidades e centros urbanos, a SEGURANÇA. A tendência (essa não é nada estética) é de nos fecharmos cada vez mais em busca de segurança, e o que mais vemos por aí são prédios (e algumas casas) que encontram a solução para não perder a vista da edificação utilizando “muros” de vidro, que permitem que as pessoas vejam o interior do terreno, enxerguem a arquitetura e fachada do prédio e ainda assim se sintam mais seguras (há controvérsias a respeito desta tendência das fachadas de vidro…).

Essas soluções tem um preço, e costuma ser bem salgado, além de manutenção cara e constante, pois os vidros precisam estar sempre limpos para cumprirem com sua função de transparência!

Além disso, quem nunca sonhou com bairros e prédios próprio do estilo das cidade jardim, que é presente até hoje na arquitetura norte americana, com lindos quintais gramados, às vezes até com a famosa cerquinha branca, com tudo aberto para que as pessoas possam circular, “ter contato com os vizinhos” (entre aspas, porque as casas são tão distantes umas das outras que este contato é mínimo).

E essa característica de permeabilidade e mobilidade, principalmente nos prédios e espaços públicos tem também um papel social fundamental para nossas cidades, inclusive somos super a favor do novo Plano Diretor Estratégico aprovado na cidade de São Paulo, que favorece a permeabilidade urbana, ou seja, que as quadras admitam a possibilidade de serem atravessadas, assim a cidade se torna mais respeitosa com os pedestres.

Aqui temos um dilema, que cabe também ao seu arquiteto estudar e resolver, pois existem muitas formas de proteger (quando deixar aberto não é uma opção), como o uso de elementos vazados como os famosos cobogós (que nunca saem de moda), ou os mourões que se bem usados trazem visibilidade e integração com a rua, ou ainda, o tratamento do terreno com diferentes níveis (alturas), indicando as áreas acessíveis e as não acessíveis.

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Residência com muro e portão fechados, não se vê nada além disso
Imagem Google

Cada vez mais, e não é exclusividade das grandes cidades, as pessoas fecham a frente de suas casas com altos muros, portões que não permitem nenhuma visão da parte interna, e vivem dentro de seu próprio espaço (muitas vezes com câmeras para se assegurar do que acontece ali fora).

Independente dos motivos que levaram a isso, hoje temos ruas que, fora do horário de movimento, não oferecem nenhuma segurança para quem passa ali, seja de carro, ou pior, a pé! E não estamos mencionando a violência das cidades (que sabemos que só cresce a cada dia, infelizmente!), estamos falando da sensação de insegurança de passar nestes espaços impessoais que foram criados quando as pessoas viraram as costas para a cidade e suas ruas, passaram a viver fechadas e enclausuradas em seus terrenos e se sentem mais seguras assim, mas não percebem que se tornaram reféns de suas próprias escolhas (e dos vizinhos).

A cidade precisa das pessoas para ter vida, se não há pessoas circulando por ela, surgem estas áreas realmente assustadoras. Então fica aqui a reflexão sobre até que ponto as fachadas com muros altos, portões fechados e mil cercas elétricas com câmera e guarita são realmente seguras. Vamos explorar este tópico mais a fundo em um post futuro, analisando ações e estudos em diversas cidades para, quem sabe, enxergar e apontar um possível caminho com mais qualidade de vida.

Sobre muros altos + portões fechados, sabemos que, dependendo do tamanho do terreno e do recuo da construção em relação ao muro da divisa (frontal, lateral ou fundos), a casa será mais salubre ou não, pois isto afeta diretamente a qualidade da ventilação e da iluminação naturais, comprovando que nem sempre ter uma fachada assim é a melhor saída/ opção. Ou seja, a sua fachada ainda pode se tornar uma questão de saúde.

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Fachada de residência com mescla de materiais e muro com panos de vidro
Projeto desconhecido/ Imagem – Google

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Fachada de residência com grades e portões altos, mas sem se fechar para a cidade
Projeto Terra e Tuma/ Imagem – Archdaily

5) A fachada que vende mais

Em comércios a fachada pode ser decisiva para seu potencial cliente entrar no estabelecimento e consumir ali. Seja uma loja de roupas, uma casa de ração e produtos pet, um restaurante ou apenas uma lanchonete, ninguém gosta de entrar em uma comércio feio e com aspecto de mal cuidado.

Neste caso investir em uma boa fachada, alinhada às expectativas e imagem que a empresa quer passar para o consumidor é essencial! Podemos até dizer que é caso de vida ou morte, porque se o proprietário do estabelecimento não investe nem na fachada, que é o cartão de visitas, quem dirá no bom atendimento e satisfação do cliente.

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Fachada da loja Estar Móveis/ SP
Projeto Studio Superlimão/ Imagem – Arcoweb

Então comerciantes, invistam em suas fachadas e garantam que seus clientes entrem para gastar com gosto!

6) A fachada monumento

Quando se trata de construções e edifícios públicos é comum que os arquitetos considerem as fachadas como pontos focais e de atenção na cidade, que por sua vez pode se tornar referência na cidade, e aí a discussão entre harmonia e destaque do entorno atinge um outro patamar, bem mais completo. Mas o que mais gostamos disso é o quanto projetos e construções assim embelezam nossas cidades e nos motivam a circular por aí e aproveitar o ar cosmopolita.

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Fachada original com inserção de fachada em Titânio após reforma por Daniel Libeskind
Museu ROM – Toronto/ Canadá
Imagem acervo pessoal Paulo Capel

No final dessa reflexão, o que entendemos é que para uma fachada tudo importa, menos viver de fachada!

Hoje em dia está ‘fora de moda’ (lá vem a tal da tendência de novo) representarmos papéis do que não somos, trabalhar com o que não amamos, viver sem um propósito, e isso é o que chamamos de viver de fachada!

Até o próximo post 🙂

Dani Skubs e Paulo Capel

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